Lendas

Os bois de D.Loba

Os bois de D.Loba

Andava Frei Gonçalo ocupado com a construção da ponte quando depara com a necessidade de carrear umas pedras- algumas de avantajadas dimensões. Para tais trabalhos nada melhor que umas juntas de bois que, atrelados a umas zorras, fariam o transporte de pedras desde a pedreira até à obra. Era do seu conhecimento que a uns três quilómetros- mais propriamente no lugar do Mormilheiro, em Padronelo- vivia uma senhora fidalga, de sua graça D.Loba, que tinha muitas e anafadas rezes. Sabia também que amiudadas vezes andava de candeias às avessas e não era de fácil trato, para além de ser somítica. Movido por uma vontade e fé inabaláveis meteu os pés ao caminho e humildemente bateu ao ferrolho dos pesados portões da Torre. D.Loba ao saber da presença do frade mandou-o entrar e, sem mais delongas, quis saber o porquê de tão inesperada visita. Frei Gonçalo pô-la ao corrente das suas preocupações e necessidades ao que D.Loba, com ar muito simpático e falsa modéstia, diz: -Pois bem Frei Gonçalo, se precisa de umas juntas de bois, leve os que precisar que estão além no pasto. Frei Gonçalo olhou em volta, reparou que eram bois em estado selvagem e, sem demora- antes que a fidalga se arrependesse e voltasse com a palavra atrás- pediu uma estriga de linho a uma mulher que ali estava a fiar e, após esta lhe ser entregue, logo se transformou numa corda. Dirigiu-se aos bois, chamou-os e jungiu-os como se fossem mansos, para o espanto da fidalga e seus criados. Após longos meses de trabalho, uma vez que já não eram precisos, resolveu devolvê-los. Chegado à Torre foi muito bem recebido. Agradecido o favor a D.Loba, perguntou-lhe: -Vossa senhoria como deseja os bois?... como eram ou como estão? A fidalga, após tantos meses de trabalho, julgando que os animais estavam magros e mal tratados e sem pensar nas palavras do frade respondeu: -Como eram. A pregunta de Frei Gonçalo não estava relacionada com o aspeto físico dos bois mas sim com o seu estado temperamental (como eram ”selvagens”; como estão “domesticados”). A esta resposta Frei Gonçalo devolveu os bois ao pasto que logo ficaram selvagens e entregou a D.Loba a corda que, ao tocar-lhe nas mãos, se transformou numa estriga de linha pronta a ser fiada.

"LENDAS DE S. GONÇALO E DE AMARANTE" DE ANTÓNIO PATRÍCIO