Lendas

Uma capa por barco

Uma capa por barco

Uns referem-na como tendo acontecido quando Gonçalo era ainda criança, outros quando já era frade. O certo é que esta lenda prende-se com a forma que Gonçalo encontrou para atravessar o rio, talvez Vizela por negação de tal travessia por parte do barqueiro. Era costume- costume que e prolongou nalguns lugares até meados do século XX- naquele tempo existir um barqueiro para atravessar pessoas e até animais (porcos, ovelhas, cabras e de capoeira) em vaus onde as águas eram calmas e a travessia segura. Tendo saído seus pais para uma romaria- Gonçalo havia ficado a guardar o milho que secava na eira- e pensando que menino não se ia aguentar com o prometido o pai, Gonçalo Pereira, recomendou ao barqueiro que se o filho aparecesse por aquelas bandas não o atravessasse custa-se o que custasse, sob pena de ter de se haver com ele no regresso. Ainda o barqueiro, cujo nome não reza a lenda, não tinha acabado de coçar o queixo já Gonçalinho, todo repioqueiro, lhe pedia para atravessar. Negação imediata do barqueiro; novo pedido; nova negação. Gonçalinho ficou pensativo; olhou para o céu, para o rio e para o barqueiro e, sem demora, tirou a capa que trazia pelos ombros, lançou-a à água, sentou-se nela e, com um cajadinho que sempre o acompanhava, remou até à outra margem, para espanto do barqueiro que não queria acreditar no que estava vendo. Foi à festa, encontrou-se com os pais e voltou mais cedo com a desculpa de ter uns afazeres, e atravessou o rio da mesma maneira: sentado na capa e a remar com o cajadinho. A outra versão remete-nos para Gonçalo já frade após a longa caminhada (tinha sido espancado e escorraçado pelo sobrinho) que encetou à procura de um lugar onde se abrigar. Encontrou um grande rio e, como não sabia muito bem descê-lo ou subi-lo, atirou a capa para a água e onde ela parasse ali ficaria. Para seu espante a capa, em vez de descer ao sabor da correnteza, começou a subir o rio vindo a parar junto de umas grandes fragas e uma ponte em ruínas onde, no cimo, existia uma pequena orada em ruínas. O rio era o Tâmega. A orada era dedicada a Santa Maria de Amarante Maior que, depois de reconstruída, frei Gonçalo dedicou a Nª. Sª. da Assunção. Das instalações contíguas fez a sua casa onde viveu até se despedir dos vivos no dia 10 de janeiro de 1259 (1262?).

"LENDAS DE S. GONÇALO E DE AMARANTE" DE ANTÓNIO PATRÍCIO