Factos

As Invasões Francesas

As Invasões Francesas

Ficou por alto preço à nossa terra a glória que ela adquiriu na invasão francesa. Na guerra implacável que lhe fizeram os seus crudelíssimos inimigos não se empregou somente o aço percuciente das baionetas, a bala perfurante das espingardas, a metralha assoladora dos canhões. Na sua barbaríssima fúria, no seu génio destrutivo e terrível, os franceses adotaram aqui, e em toda a parte, o incêndio como pronto e fácil aliado; e esta vila ainda mostra, nas ruínas de antigos edifícios, o maldito vestígio dessa horda selvagem, só comparada às que o ocidente da Europa viu a sofrer no século V da nossa era. Essas ruínas ainda de pé, tisnadas pelo fumo, enegrecidas pelo tempo, bom foi que se conservassem. Melhor que qualquer monumento, fabricado depois, dizem na sua dolorosa mudez como foi duríssima, como foi trágica essa quadra, em que os nossos maiores estiveram a toda a altura do momentoso dever que o patriotismo lhes impôs! O ódio ao invasor da pátria é sagrado. Nas lutas da liberdade e da independência, o ódio, que é um péssimo sentimento humano, demuda-se, transforma-se em alta virtude moral. É reverso do amor da pátria: santo como ele! Foi na expressão desse amor e no legítimo desafogo desse ódio que sob a direção do valente general Silveira, e acompanhando e secundando o seu destemido exército, os amarantinos se extremaram sempre pela bravura e pela lealdade. Os louros que simbolizam, recordam e premeiam o valor militar pertencem de direito às admiráveis tropas portuguesas que se imortalizam aqui, defendendo a vila e a ponte de Amarante: mas e justo também que se vote a coroa cívica aos paisanas desta região, tão sinceramente devotados à causa nacional, tão prontos na obediência, tão generosos na doação de tudo o que possuíam, tão valentes e ardidos nos combates, tão impassíveis e serenos na adversidade e no perigo! Amarante foi das primeiras terras que secundaram o movimento insurrecional de que, em junho de 1898, o Porto dera o sinal e a voz. Ao grito de alarme pela independência, e contra o deprimente domínio francês, repercutido aqui, entre estas alpestres serranias onde as águias valentes fabricam os seus ninhos, respondeu patrioticamente o lealismo e a pronta coragem dos nossos maiores; e logo, em consequência deste primeiro impulso, Amarante foi grande parte das causas que determinaram o retrocesso de Loison, quando se dirigia de Almeida para o Porto. Este aleijão do mal, de atrocíssima memória, receou, e com razão, transmontar a serra arrepiada de espingardas e baionetas, e onde os acidentes de terreno, ínvio e dificilmente praticável, o ameaçavam duma cilada mortal a cada volta do caminho, duma surpresa inevitável na arriscada e aventurosa marcha do seu exército. Assinara-se a triste convenção de Sintra. Junot, derrotado na Roliça e no Vimeiro, embarcara para França. Se o sensual e brutalíssimo sargentão não conquistou o sonhado bastão de marechal, nem levava, ganhos na guerra, os louros da vitória, abarrotava-o certamente o oiro roubado nas suas legendárias depradações! Ao principiar a 2ª invasão, a de Soult, esta vila prosseguiu e manteve-se na atitude tomada. Auxiliou, no que pôde, os preparativos militares, com que se havia de receber dignamente o inimigo, se viesse. Ofereceu tudo: deu tudo o que foi preciso. Os nobres pusera-se à frente do povo, e souberam estimulá-lo para a grande empresa da salvação pública: padres e seculares confundiram-se na ânsia patriótica comum. Trabalharam dia e noite nas fortificações da ponte, onde pressentiam que se travaria o formidável duelo: cavando fossos, abrindo minas, formando palissadas, construindo baterias, levantando barricadas, improvisando redutos e defesa. Organizaram-se guerrilhas volantes, imprevistas, infatigáveis na guerra que mais temiam os generais franceses. Chegado o mês de abril de 1809, que ficou gravado a ferro e a fogo na memória desta terra, e depois de pequenos combates parciais e de ligeiras escaramuças, em que nós levamos sempre a melhor, a 18, finalmente fez o inimigo a sua incursão na vila… Entrou aqui como um flagelo de Deus: espalhando por toda a parte o incêndio, o extermínio, a morte. Encontrou a recebê-lo a indomável bravura dum exército e dum povo disposto a tudo: a morrer, se fosse necessário; mas a disputar palmo a palmo, momento a momento, o chão sagrado da sua terra e a amada bandeira da sua nação! Sabe-se o que foram os catorze dias, em que sob a direção suprema de Silveira a ponte, defendia do lado esquerdo, resistiu ao ímpeto,, repetido e crescente, das tropas francesas. Sabe-se que, nas duas colinas fronteiras, se abraseava a toda a hora a boca dos canhões e a fuzilaria acordava incessantemente os ecos deste vale estreito. Sabe-se que, afinal, a ponte foi forçada, e como foi forçada… Tinham por si o número e a qualidade militar; mas isso não era bastante. Reputados generais dirigiam de seu lado a ação: mas os seus talentos eram impotentes ante a magnitude da empresa. Com os seus peitos de aço e as suas almas de diamante, o nosso pequeno exército parecia invencível no seu posto! Afinal uma trama bem urdida, favorecida por um destes nevoeiros do nosso Tâmega, que adensam a noite e retardam e obscurecem o dia, fez que na manhã, inditosa para nós, do dia 2 de maio, tivesse de se considerar frustrada toda a resistência possível! A honra ficou salva. Nesta ação, que o inimigo ganhou, o mais belo renome é dos vencidos. As vantagens da defesa tão demorada, e porque o foi, colheram-se, foram nossas. Não sei se está inscrito no Arca do Triunfo o combate final de Amarante: nas colunas triunfais da História a glória é nossa, embora o sucesso fosse deles. O sucesso imediato, entenda-se. Contrarestamos a torrente que se ia despenhar, com todo o seu cortejo sinistro, nas províncias de Trás-os-Montes e Beira, e influímos notavelmente na orientação e no resultado final da guerra.



"MARÂNUS ANTALOGIA DE TEXTOS SOBRE AMARANTE A TERRA E AS GENTES" DE ANTÓNIO CARDOSO